quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

A UNIÃO FAZ A AULA

Cresce a movimentação de empresas que se reúnem para viabilização de cursos em temas de interesse comum.
Paulo Jebaili

Formar gestores de alto nível para atender às demandas de um setor em acelerada expansão. Foi a partir dessa necessidade que a empresa de call center Softway começou a articular um projeto de capacitação de seus executivos. Ao examinar as ofertas de programas, notou que não havia, entretanto, um no qual todos os fundamentos desejados estivessem reunidos. Havia disciplinas que interessavam em cursos de marketing, outras residiam no curso de tecnologia da informação. A partir desse quadro, surgiu a proposta de criação de um curso que atendesse à especificidade do segmento. A idéia foi viabilizada com a adesão de outras empresas que passavam por situação semelhante. Ao lado da Credicard e da Editora Abril, foi estabelecida uma parceria com o Ibmec-SP, que resultou na formação da primeira turma do MBA Executivo em CRM e call center, em 2003, com 44 alunos.
Em 2005, o curso foi rebatizado MBA Corporativo de Excelência no Relacionamento com Clientes e a segunda turma contou com 39 alunos, de 12 empresas. Uma terceira turma está sendo preparada para outros 18 meses de estudos, tempo de duração do curso. O setor de call center é um dos que mais crescem no país. Estimativas da Associação Brasileira de Telesserviços dão conta de que 675 mil profissionais trabalhem no segmento, tendo sido criadas 60 mil dessas vagas no ano passado.
Santos, da Faap: "Curso fica mais rico quando se discutem questões mais amplas"
Nesse ambiente, a empresa julgou essencial contar com pessoas bem preparadas para as funções estratégicas. "O objetivo é formar especialistas nos negócios, gestores que tenham competências para lidar com uma diversidade de temas, como rentabilidade, infra-estrutura de TI, relacionamento com o consumidor, estratégia de vendas", explica Rosana Rocha, superintendente de comunicação e marketing da Softway.
Para ela, a educação guarda estreita relação com aumento de performance. "O profissional que freqüenta um curso de alto nível melhora o seu conhecimento da atividade, o seu discurso, a sua capacidade de análise e síntese, e fica mais propenso a ter novas idéias. Isso acaba tendo reflexos no relacionamento com o cliente", comenta.
A iniciativa da Softway é um exemplo do crescimento de um modelo que vem sendo praticado com crescente freqüência nos últimos anos: o consórcio. São empresas que se juntam em torno de uma proposta educacional comum.
Em termos de aprendizado, um dos atributos do modelo é que ele pode oferecer uma troca de experiências mais intensa do que um curso in company e, ao mesmo tempo, um foco mais direcionado e um nível de especificidade maior do que os cursos abertos.
Osvino, da FDC: troca com o mundo externo e conteúdo para discussão interna
Para o vice-diretor da escola de administração da Faap e diretor do MBA da instituição, Tharcisio Bierrenbach de Souza Santos, ter contato com uma diversidade de culturas empresariais é uma vantagem básica do MBA em consórcio em relação ao curso in company. "Quando se trabalha com uma única empresa, há uma tendência de se ficar circunscrito aos problemas que são levantados naquele ambiente", diz. "Com o mundo flexível e altamente competitivo como o que estamos vivendo, muitas vezes, a situação vivida no passado não será repetida no futuro. O curso fica mais rico quando se discutem questões mais amplas, quando se têm uma visão e uma diretriz mais abertas", analisa.
Um ponto positivo destacado pelo professor e coordenador dos programas de pós-graduação da Fundação Dom Cabral, Osvino de Souza Filho, nos cursos em consórcio, é a possibilidade de o aluno trocar experiências com participantes de outras empresas e também de compartilhar o aprendizado com seus colegas de trabalho. "Nos programas abertos, podemos ter 50 pessoas de 50 empresas diferentes. No MBA consórcio, vamos supor, há quatro participantes de 12 empresas diferentes. Então, são 12 empresas que proporcionam riqueza de troca com o mundo externo e quatro participantes que aproveitam o conteúdo para uma discussão interna. Eles desenvolvem projetos, vão resolver problemas da sua própria empresa, mas essa riqueza é acrescida do debate em torno do seu projeto com profissionais de outras empresas", observa.
Fora do âmbito pedagógico, o fator financeiro também tem contribuído para o aumento da procura pela modalidade de consórcios. O professor Osvino conta um episódio acontecido próximo ao momento da entrevista. "Um cliente queria fazer um programa de especialização, mas só tinha 15 candidatos. E o custo do programa é único, normalmente para 40, para 50. Para 15, o custo per capita fica inviável. Propus a reunião de mais uma ou duas empresas para tentar compor uma turma de 30 alunos, com conteúdo customizado", relata. Ele acrescenta que esse modelo permite, muitas vezes, a participação de empresas de menor porte nos programas.
O consórcio também foi a solução para a confecção do MBA Logística do Coppead/UFRJ. A instituição foi procurada por uma empresa de logística em busca de um programa de 360 horas sobre o assunto. O desenho a quatro mãos já estava feito, mas o começo das aulas ainda não estava garantido. "Uma dificuldade que a empresa tinha era o número de participantes que viabilizasse economicamente a realização do curso", lembra Kleber Figueiredo, vice-diretor de educação executiva do Coppead. A saída foi encontrar outras três organizações interessadas, uma do setor de bebidas, outra de telecomunicações e a terceira também de logística, porém com atuação em outros pontos geográficos. "Foi interessante porque essas empresas também estavam pensando em cursos de logística, mas não tinham o número adequado de alunos para formar o curso."
A primeira turma, criada em 2000, teve 36 alunos. A partir da segunda, no ano seguinte, o MBA Logística virou um curso aberto da universidade. "A partir da terceira turma em diante, o curso sobreviveu por si só", conta Figueiredo.
Figueiredo, do Coppead/UFRJ: desenhado sob encomenda, curso tornou-se abertoE no âmbito do modelo de consórcios, tem-se tornado mais intensa uma movimentação para formar parcerias com empresas que compõem a cadeira de valor. Clientes e fornecedores estão sendo chamados para responder à chamada em sala de aula. "As empresas ultimamente têm sentido necessidade de melhorar a cadeia de negócios. E tem sido crescente essa necessidade, porque a empresa sabe que não vive sozinha, ela precisa de uma boa performance de seus fornecedores, e necessita atender bem o seu cliente", analisa o professor Osvino, da FDC. Ele nota que esse tipo de associação vem sendo mais freqüente nos últimos 5 anos. "Essa visão é crescente na área de negócios, portanto, essa alternativa de montagem de consórcios é uma solução", afirma.
Figueiredo, do Coppead, também atesta essa prática. Ele conta uma experiência recentemente concluída, em que uma empresa do Paraná propôs a realização de um curso de aperfeiçoamento em logística com 160 horas de duração. Da turma de 39 pessoas, apenas seis eram da empresa proponente. "É uma forma de estender o conhecimento para toda a cadeia de valor. Não adianta a empresa ser eficiente. Se o cliente e o fornecedor não forem, todos perdem", observa.


http://revistaensinosuperior.uol.com.br/textos.asp?codigo=11923

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